Cortes da Navalha, sementes da Kalunga: por uma transcestralidade nos terreiros
DOI:
https://doi.org/10.5281/wc01kb68Palavras-chave:
Transgeneridade, Religiões de matriz africana, Saberes de terreiro, DecolonialidadeResumo
Com e apesar de todas as contradições que os chamados sincretismos carregam para as tradições de terreiro, é indiscutível que elas não se reduzem à instituição de uma nova organização religiosa em contextos coloniais, mas, ao contrário, nascem de rearticulações de saberes, práticas e laços sociais rompidos pelo tráfico escravista. Calundus e cabulas há alguns séculos, candomblés, umbandas e omolocôs hoje, mais do que religiões institucionalizadas, são linhagens de cura e reconstruções de uma ancestralidade rompida e corrompida pelo carrego colonial. Embora violências e transfobias também ocorram nesses espaços, não é à toa que foi nas casas de axé que aquelus que vieram antes de nós encontraram cuidado, comunidade e família e se tornaram ancestrais para nós, quando nossas linhagens de sangue tantas vezes não nos querem e até nos matam. Que potência é essa das tradições de terreiro, de se fazerem e refazerem frente às violências da colonização e do Estado? E que referências e cuidados nos ensinam quando nós trans entramos na porta de um terreiro? Há muito o que se pensar para a construção de uma transcestralidade de axé, mas, no fundo, o que espero poder trazer para a roda é a força que um abraço de Navalha traz para uma travesti, para esta travesti.